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Tornar-nos aquilo que realmente somos

“O homem é solicitado a fazer de si mesmo aquilo em que deveria tornar-se, para realizar seu destino”. (Paul Tillich)

O conceito de que cada um de nós tem uma ordem primordial de potencialidades ansiando por realização é muito antigo. Santo Agostinho escreveu que “há alguém dentro de mim que é mais do que eu mesmo”. Aristóteles usou a palavra intelecto para se referir à evolução e ao completo desabrochar de algo originalmente em estado potencial. Junto com intelecto, Aristóteles também falou de essência como qualidade que não se pode desperdiçar sem deixar de ser si-mesmo. Da mesma maneira, a filosofia oriental aplica o termo dharma para designar a identidade intrínseca e a latente forma de vida presente em nós todos desde o nascimento. É dharma da mosca zumbir, do leão rugir e de um artista criar. Cada uma destas formas tem sua própria espécie de verdade e de dignidade.

A moderna psicologia atribui diversos nomes à eterna questão de “ser aquilo que se é realmente” – o processo de individuação, a auto-realização, auto-atualização, autodesenvolvimento, etc. Seja qual for o rótulo que receba, o sentido oculto está claro: todos nós possuímos certos potenciais e capacidades intrínsecas. O que há a mais, em algum lugar dentro de  nós, é um conhecimento primordial ou uma percepção pré-consciente de nossa verdadeira natureza, de nosso destino, de nossas habilidades e de nossa assim chamada vida. Não é só aquilo que temos de passar na vida, mas, num nível instintivo, aquilo que sabemos que a vida é.

Nossa realização, felicidade e bem-estar dependem de descobrirmos este modelo e de cooperarmos com a sua realização. O filósofo dinamarquês Kierkegaard observou que a forma mais comum de desespero é aquela de não sermos aquilo que realmente somos, acrescentando que uma forma mais profunda de desespero aparece quando se escolhe ser outro que não nós mesmos. O psicólogo Rollo May escreveu: “Quando a pessoa nega suas potencialidades e falha em realizá-las, sua condição é de culpa”. Teólogos interpretaram o quarto pecado capital, a preguiça ou accidia, como “o pecado de falhar ao fazer de nossa vida aquilo que sabemos que poderíamos fazer dela”.

Nossa existência não é só dada a nós, mas cobrada de nós, e cabe a nós fazer de nós mesmos aquilo para o que fomos destinados. Enfim, só nós mesmos somos responsáveis por aquilo que fazemos com a nossa vida, pelo grau com que aceitamos ou rejeitamos nossa verdadeira natureza, seu propósito e sua identidade.

Fonte: Do livro As Doze Casas de Howard Sasportas

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O que é liberdade?

Um discípulo perguntou ao mestre: “Que é liberdade?” “Mas que liberdade?”, replicou o mestre. “A primeira liberdade é a estupidez. Lembra o cavalo que derruba o cavaleiro e relincha em triunfo, só para ter as correias da sela apertadas ainda mais.

A segunda liberdade é o remorso. Lembra o timoneiro que afunda com o navio depois de tê-lo arremessado contra os escolhos, em vez de salvar-se nos botes com os outros marinheiros.

A terceira liberdade é a compreensão. Ela só vem, ai de nós, depois da estupidez e do remorso! Lembra o caule que se dobra ao vento e, por dobrar-se no ponto fraco, resiste.”

“E isso é tudo?”, estranhou o discípulo.

Respondeu o mestre: “Muitos pensam que buscam a verdade com a sua própria alma, mas é a Grande Alma que pensa e busca neles. Como a natureza, ela aceita a variedade, mas substitui facilmente os que tentam trapacear. Aos que lhe permitem pensar e buscar neles, concede porém uma pequena liberdade, ajudando-os como o rio ajuda o nadador a alcançar a outra margem, desde que se submeta à sua corrente e se deixe levar.”

Fonte: Livro A Simetria Oculta do Amor de Bert Hellinger

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